No Seridó, há histórias que não cabem em um caderno de receitas. Algumas estão no ponto de um doce, no tempo necessário para apurar uma mistura no tacho ou na habilidade de reconhecer, pelo cheiro e pela textura, quando o preparo está pronto. Outras permanecem na lembrança de quem aprendeu a cozinhar observando a mãe, a avó ou uma vizinha mais experiente. Em Carnaúba dos Dantas, esses conhecimentos ganharam espaço para serem compartilhados, reconhecidos e transmitidos durante as atividades do projeto Doces do Seridó – Edição Geoparque, realizadas de 15 a 17 de outubro.

Mais do que preservar o modo de preparar cada doce, a iniciativa destacou, ao longo dos três dias, os vínculos entre a culinária, a memória e a identidade do Seridó. Em uma região marcada pelo sol forte, pela criatividade de seu povo e pela relação profunda com as próprias raízes, os preparos tradicionais revelam maneiras de viver e trabalhar que atravessam gerações. Entre oficinas, degustações e encontros, a programação valorizou as pessoas que mantêm esses saberes vivos e ajudam a contar a história do território.

A ação foi realizada pela Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do Rio Grande do Norte (Funcern) e pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). A iniciativa integra o Balaio Cultural II, projeto que oferece apoio financeiro a outras propostas artísticas e culturais, ampliando as condições para a realização de ações que já aconteciam nas comunidades. A edição contou ainda com a colaboração do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte (Sebrae-RN) e da Prefeitura de Carnaúba dos Dantas.

As atividades ocorreram em diferentes espaços do município: o auditório do Centro Pastoral Paroquial Dom José Adelino Dantas, a Escola Estadual João Henrique Dantas, a praça Caetano Dantas e a Escola Municipal Francisco Macedo Dantas, no povoado Ermo. A iniciativa buscou aproximar a comunidade de seus próprios saberes, reunindo conhecimentos culinários, manifestações culturais e experiências que valorizam a memória alimentar do Seridó.

Tradição nas mãos de quem faz

Entre os protagonistas da ação estão doceiras e doceiros que dedicam parte de suas vidas à preparação de receitas tradicionais da região. Com ingredientes, técnicas e conhecimentos transmitidos entre gerações, contribuem para preservar sabores que fazem parte da história e da identidade cultural do Seridó. Durante os três dias de programação, compartilharam suas especialidades com o público, revelando não apenas os modos de preparo de cada doce, mas também as memórias, os costumes e as experiências que ajudam a manter viva a cultura alimentar do território.

Anísia Dantas levou à programação doces de abacaxi com leite de coco e de coco verde, além de uma criação preparada especialmente para a ocasião: um sorvete de gogoia. A fruta, que recebeu destaque na edição deste ano, ganhou novas possibilidades pelas mãos da doceira, que também participou das atividades de valorização dos sabores locais. Para Anísia, que afirma gostar de cozinhar e preparar doces e outros alimentos, o projeto representa uma oportunidade de ampliar o reconhecimento da produção tradicional de Carnaúba dos Dantas. Seu trabalho revela que preservar uma tradição não significa impedir mudanças, mas permitir que ingredientes conhecidos encontrem novas formas de chegar às pessoas.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Lindalva Dantas apresentou pirulitos e puxa-puxa, doces cuja preparação artesanal também desperta lembranças afetivas. São sabores que remetem à infância, às festas e aos momentos de convivência, aproximando pessoas de diferentes idades em torno de experiências familiares. Ao compartilhar essas especialidades, Lindalva contribuiu para que receitas presentes na memória da comunidade fossem conhecidas por outros públicos. O valor desse gesto está tanto no doce pronto quanto no conhecimento necessário para produzi-lo e na possibilidade de transmiti-lo a quem ainda não conhece seus modos de fazer.

O caju-ameixa, apresentado por Jalma Dantas, trouxe outra dimensão desse patrimônio: a paciência exigida por receitas que não podem ser apressadas. O preparo inclui cerca de 24 horas de cozimento, seguidas de três dias de secagem ao sol. O processo artesanal exige tempo, atenção e domínio de cada etapa, características que ajudam a explicar por que preparações tradicionais precisam de pessoas dispostas a continuar produzindo e ensinando. Com a apresentação de uma receita pouco presente atualmente no município, Jalma contribuiu para recuperar um conhecimento que corre o risco de ficar restrito às lembranças de quem ainda sabe prepará-lo.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

A programação também reservou espaço para o chouriço, receita tradicional do Seridó cujo preparo, conduzido por Edilza Dantas, durou um dia inteiro. Com a colaboração de auxiliares, ela mostrou que certos conhecimentos culinários dependem de trabalho coletivo, organização e experiência. Cada pessoa participa de uma etapa, e o resultado reúne o esforço de todas e todos. Em uma época marcada pela rapidez, acompanhar um preparo tão demorado ajuda a compreender o valor de técnicas construídas ao longo do tempo. O chouriço não representa apenas uma especialidade regional: carrega práticas de convivência e cooperação que fazem parte da cultura alimentar da região.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

As experiências compartilhadas por quem participou da iniciativa se somaram às de outras pessoas que apresentaram suas especialidades ao longo do evento. Filhós com mel, bolo grude, sequilhos e preparações com gogoia também integraram a programação. Em cada atividade, a comida serviu como ponto de partida para conversas sobre origem, memória e pertencimento. Receitas que poderiam permanecer restritas às cozinhas familiares passaram a ser compartilhadas em espaços coletivos, onde crianças, jovens e adultos tiveram a oportunidade de conhecer sabores e técnicas ligados à história de sua comunidade.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Valorização dos saberes locais

A transmissão dos conhecimentos compartilhados durante os três dias de evento vai além da preservação de receitas antigas. Ao apresentarem seus modos de fazer, doceiros e doceiras também transmitiram saberes sobre ingredientes, tempo, trabalho e adaptação às condições do lugar. Essas práticas integram a identidade cultural do Seridó e podem abrir caminhos para que a produção artesanal seja reconhecida também como atividade econômica.

A relação entre cultura e geração de renda está entre os propósitos da iniciativa. Para a gerente de Projetos da Funcern, Maria Isabel Dantas, a ação contribui para que produtores e comunidades reconheçam o valor econômico dos conhecimentos que já fazem parte de seu cotidiano. A troca de experiências permite que preparos antes conhecidos principalmente no ambiente familiar sejam apresentados a novos públicos e considerados também como produtos com potencial de comercialização. Dessa forma, a valorização cultural pode caminhar junto à criação de oportunidades para as famílias e para o desenvolvimento local.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Coordenada pelo professor Marcos Vinicius, com subcoordenação do professor Abraão Lincoln, ambos do IFRN, a ação Doces do Seridó conta com a parceria da Funcern e do Instituto Federal para aproximar os saberes tradicionais da comunidade e contribuir para o desenvolvimento local. Na avaliação de Abraão, essa articulação favorece a socialização do conhecimento e cria oportunidades para que iniciativas locais compartilhem experiências e contribuam para o desenvolvimento social.

A programação também contou com atividades do Sebrae-RN voltadas à divulgação e ao fortalecimento dos pequenos negócios. Na quinta-feira (15), Delano Dantas apresentou orientações sobre oportunidades de contratação pelo poder público. Já na sexta-feira (16), Rafael Gomes conduziu a oficina Design de Rótulos, com dicas para melhorar a apresentação dos produtos e valorizar a identidade regional.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Novos espaços, novas oportunidades

O encerramento da edição também foi marcado por iniciativas que ampliam as possibilidades de circulação dos produtos e de encontro entre moradores e visitantes. Durante o evento, foram lançadas duas ações: a Casa da Vitória e a abertura da Feira de Agricultura Familiar.

A Casa da Vitória foi concebida como um espaço de valorização do artesanato, da culinária regional e de outras manifestações culturais, reunindo o trabalho de mulheres envolvidas na organização comunitária. A proposta é oferecer um lugar para apresentar produtos, compartilhar conhecimentos e manter vivas práticas que integram a identidade de Carnaúba dos Dantas.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Já a Feira de Agricultura Familiar destaca a importância de criar espaços para a produção local e aproximar quem produz de quem consome. A iniciativa pode contribuir para dar visibilidade ao trabalho de agricultores e agricultoras, valorizar os alimentos produzidos no município e ampliar as oportunidades de comercialização.

As duas ações aproximam a valorização cultural das condições de vida da população. Preservar uma receita e manter técnicas artesanais são partes importantes desse processo, assim como criar oportunidades para que produtores e produtoras tenham reconhecimento e possam gerar renda com seu trabalho. Dessa forma, os saberes tradicionais encontram caminhos para continuar presentes no cotidiano e contribuir para o desenvolvimento local.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Raízes que permanecem

Ao longo dos três dias, o Doces do Seridó – Edição Geoparque transformou diferentes espaços de Carnaúba dos Dantas em pontos de encontro entre pessoas, receitas e histórias. O que se viu não foi apenas uma sequência de oficinas e degustações, mas a reunião de conhecimentos que ajudam a explicar a relação da comunidade com sua terra e com as gerações que vieram antes dela.

Há algo de profundamente humano no trabalho de preservar uma receita: é preciso lembrar, repetir, observar e ensinar; é preciso dedicar horas a um preparo, reunir outras mãos e confiar que alguém dará continuidade àquilo que foi aprendido. Por trás de cada doce, existe uma pessoa que guarda um conhecimento e escolhe compartilhá-lo.

Quando o saber encontra espaço para circular, a memória deixa de permanecer apenas no passado: ela ganha novas mãos, novas possibilidades e novos caminhos. Em Carnaúba dos Dantas, o projeto mostrou que a cultura alimentar do Seridó continua viva porque há pessoas dispostas a cuidar dela. E talvez seja esse o legado mais importante: reconhecer que a riqueza de uma região também está nos gestos cotidianos de quem transforma ingredientes em alimento, lembranças em histórias e tradição em possibilidade de futuro.

Fotos: Thales Roque / Max Praxedes

Texto: Max Praxedes; Imagens: Thales Roque.